Por Rodrigo Bandeira

Quem nunca assistiu Karatê Kid na sessão da tarde que desfira o primeiro golpe. Imortalizado por Hollywood, o célebre mestre Sr Miyagi foi um dos muitos mitos do cinema que mostrou ao mundo um pouco da filosofia por trás das artes marciais. Isso porque os princípios que as sustentam remetem ao equilíbrio, autoconhecimento e disciplina, conceitos fundamentais para a obtenção de sucesso e autorrealização.

As artes marciais são práticas filosóficas, que se acredita terem sido desenvolvidas por monges budistas, e posteriormente difundidas por meio de templos religiosos (Budistas, Shintoístas, Hare Krishna, Taoísta, etc). O objetivo da prática era o desenvolvimento espiritual, uma vez que para exercê-la era imprescindível muita concentração e disciplina, como na meditação. É o exercício do corpo auxiliando a mente.

Para Jigoro Kano, fundador do judô:

“O judô pode ser considerado como uma arte, ou uma filosofia do equilíbrio, bem como um meio para cultivar o sentido e o estado de equilíbrio”.“

A filosofia marcial trata de questões ligadas à arte e à sua execução, prepara a mente do praticante para agir de forma coerente e ética. Sem seguir o código de conduta das artes marciais, incorre-se no risco de ter comportamentos descontrolados e perigosos. Por isso, é fundamental ser guiado pelos valores de respeito, disciplina, autocontrole e equilíbrio, que embasam a filosofia das artes marciais. A prática de meditação, e exercícios de domínio do ego são importantes recursos para o praticante gerenciar conflitos, não só no contexto das artes marciais, mas na vida como um todo.

A transmissão da arte marcial

Não é à toa que o ideal é iniciar a prática das artes marciais na infância. Quanto antes se iniciar neste caminho, melhor para o indivíduo. Sendo transmitida precocemente, a filosofia das artes marciais se configura com um alicerce estruturante da personalidade da criança, fomenta as bases para a construção de um caráter ético, além de uma postura disciplinada e resiliente perante os desafios da vida.

Para que uma pessoa seja graduada em artes marciais é fundamental a figura do o mestre, alguém que já domine a prática e seja apto a transmiti-la com sabedoria. Com ele, espera-se aprender não só formas de ataque e defesa, mas conceitos profundos, que levam ao autodesenvolvimento e autoconhecimento.

“Não existe mau aluno, só mau professor. Professor diz, aluno faz.”

Sr. Miyagi, em Karatê Kid

Ao ensinar uma arte marcial, o mestre cria situações nas quais o praticante é levado a conhecer e incorporar conceitos profundos. A forma de transmitir esses valores pode variar bastante, mas seus conceitos são os mesmos.

Um praticante em nível avançado precisa aprender a dosar sua força ao treinar com outro em estágio inferior, de modo que o treino renda para os dois e não termine com o menos avançado machucado. O conceito por trás desta situação é o do autocontrole.

A persistência é outro valor que permeia o cotidiano dos praticantes de artes marciais. O trabalho físico intenso para preparar o corpo para os combates exige disciplina e persistência. A evolução só se dá na medida em que corpo e mente caminham juntos para o mesmo objetivo. Por isso, a prática da meditação é estimulada pelos mestres como forma de levar ao autoconhecimento e maior compreensão da filosofia das artes marciais.

Para que haja maior entendimento e assimilação dos conceitos filosóficos das artes marciais, o ideal é que o praticante reflita sobre o que aprendeu em cada treino, não apenas no ponto de vista técnico, mas principalmente sobre como aplicar seus aprendizados na vida cotidiana.

“Sucesso é a capacidade de enfrentar o fracasso sem perder o entusiasmo”.

Sr Myiagi, em Karatê Kid

O aprendizado

O caminho para o aprendizado em artes marciais é longo, e passa por várias etapas. Num primeiro momento, o principal objetivo do praticante é de desenvolver física e tecnicamente, e fortalecer sua autoconfiança para que possa superar os adversários. Conforme ele evolui, evolui também seu objetivo. A busca pelo autoconhecimento e aumento da “força interna” Ki ou Chi passam a ser as novas metas. Superar a si mesmo se torna mais importante do que superar um oponente. No nível mais avançado, além de adquirir grande força interior, o praticante estará apto a aplicar a filosofia das artes marciais em qualquer área de sua vida.

Segundo Miyamoto Musashi, o samurai mais conhecido da história:

“Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você vir o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho”.

As artes marciais podem ser entendidas como um caminho, que leva ao autoconhecimento, autocontrole e equilíbrio. Por meio de seus ensinamentos, o praticante avançado transforma o que foi um dia um conceito abstrato em uma postura consciente, ética e prática diante da vida.

Há muitas modalidades de artes marciais. Conheça um pouco das mais praticadas:

Artes marciais chinesas

Especula-se que muitas artes marciais em todo mundo derivem das artes chinesas, mesmo as japonesas, como judô e karatê. Foram criadas por monges budistas e se disseminaram posteriormente. As modalidades mais conhecidas das artes chinesas são o Kung Fu e Tai Chi Chuan, usado muitas vezes para a meditação, por conta de seus movimentos fluídos. Seus princípios filosóficos são o taoísmo e a alquimia chinesa.

Artes marciais japonesas

O budô, ou as artes marciais japonesas, originou-se a partir das tradições guerreiras dos samurais e por conta do sistema de castas, que restringia o uso de armas pelos membros das classes não guerreiras, motivando-os a desenvolver técnicas para combates desarmados.

Praticar o Budô significa adotar o Bushido, um código de conduta e filosofia de vida que enfatiza a disciplina, tenacidade e treinamento físico e espiritual. Karatê, Kendô, Budô, Aikidô, jujitsu e sumô são algumas das artes marciais japonesas mais praticadas.

Artes marciais coreanas

O estilo de arte marcial coreano é o Hapkidô, que foca em defesa pessoal. Envolve técnicas de socos, chutes, rolamentos, escapes, esquivas, torções, além de técnicas com armas, como bastões, espadas, bengalas, facas e leques. O objetivo é preparar o praticante a utilizar qualquer objeto ao seu alcance como arma de defesa. Um grande diferencial das artes coreanas é que além de preparar o praticante para utilizar as técnicas de combate, o inicia também em técnicas de massagem e acupuntura.

Outro estilo bastante conhecido é o Taekwondo, luta que envolve chutes poderosos e requer equipamentos de proteção como forma de evitar lesões na cabeça, no tórax, na região genital, pernas, braços e mãos.

Artes marciais brasileiras

O mais conhecido estilo marcial nacional é a capoeira. Combina música, dança e outros elementos da cultura popular. Criada por descendentes de escravos como forma de autodefesa, envolve movimentos complexos, como acrobacias, rasteiras, joelhadas, cabeçadas, pontapés e cotoveladas. Eventualmente, incorpora facas e bastões, que empunhados pelos participantes nas rodas, protagonizam golpes ao som de melodias.

O jujitsu brasileiro é uma referência mundial no esporte. Trata-se de uma arte marcial especializada em auto defesa e luta no chão. Inclui um conjunto de técnicas com golpes de alavancas, torções e pressões para dominar o adversário, além de técnicas de agarramento, submissão e golpes traumáticos. Essa modalidade de arte marcial ganhou destaque mundial, quando o judoca Mitsuyo Maeda emigrou para o Brasil e ensinou técnicas de judô aos brasileiros Luiz França e Carlos Gracie, no início do século passado. Aqui, eles desenvolveram um novo estilo de luta, que incorporou golpes de judô e aikidô ao jujitsu tradicional do Japão.

Artes marciais mistas

As artes marciais mistas (AMM), ou o famoso MMA, são um estilo de combate que envolve tanto o combate em pé, como técnicas de luta no chão. Utiliza técnicas de várias artes marciais e golpes violentos.

 

 

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Rodrigo Bandeira
Terapeuta pós graduado em acupuntura, professor e atleta de artes marciais Mestre Reiki. Campeão Mundial de Hapkido, com títulos no jiujitsu e no Judô. Fala sobre terapias, artes marciais e bem estar.