Em inúmeras separações, a dor expressa o falecimento de um ser muito amado: o casal.

Existem lágrimas, muitas lágrimas que turvam qualquer indício de verão que se atreva no horizonte. Abundantes, pesadas, as águas de um divórcio são também águas de primavera, necessárias para o aguardado florescer. Encharcam com tristeza, raiva e frustração o corpo inerte do casamento no mesmo fluir em que umedecem a terra seca que abrigará vida nova, apesar da dor. Dor na alma, intensa na medida do amor.

Em inúmeras separações, a dor expressa o falecimento de um ser muito amado: o casal. E o casal que germinou da mistura de duas sementes ensolaradas, aprofundou raízes, produziu frutos, sombra e muitos sonhos não é uma pessoa qualquer. Talvez tenha lutado exaustivamente para sobreviver. Mas, as feridas do casal morto são muito profundas e, quando lambidas, sente-se nelas o peso de assassinar e de ser assassinado porque, sem dúvida, nenhum divórcio ocorre por acidente. Não pense, porém, que há uma vítima e um algoz no desfecho das relações. Os parceiros se alternam entre um e outro papel o tempo todo.

A alma de um casal sempre é velada à moda antiga. O defunto exposto à visitação no meio da sala, acomodado sobre a mesa que após o enterro voltará a reunir no jantar a família remanescente. Ambos os estranhos, um de cada lado, mal reconhecem o ser que repousa gélido, tão bonito quando o conceberam, agora deformado. Um tem pressa para enterrar, outro insiste desesperado na ressuscitação cardiopulmonar. Freud recolhe o exagero de rosas vermelhas, apaga as velas. Lacra o caixão enquanto os dois se ocupam em manter o dedo em riste.

O casamento muitas vezes é retratado como a soma de um mais um. Minha percepção difere um pouco dessa ideia. Na matemática dos relacionamentos, vejo os casais na teoria dos conjuntos, na intersecção. Os conjuntos A e B são autônomos, inteiros e vivem muito bem sozinhos. Trazem em si diversos elementos distintos e alguns que são comuns entre eles. Esses elementos comuns resultam em um novo conjunto, o casal. Não são apenas números. Trata-se de um ser vivo, portanto, dinâmico. Os elementos não serão os mesmos eternamente. Eles crescem, diminuem, transformam-se ao longo do tempo e não são, necessariamente, bons. A carência excessiva, por exemplo, frequenta muitas intersecções. Bela, dissimulada, trajada com o seu melhor “amo tanto que jamais viveria sem você”.

Olhar com verdade e maturidade para o que une e para o que separa é um imenso desafio para os casais, tanto mais no início da relação. Por mais valorosos que sejam os pontos que unem, talvez sejam insuficientes para que as mãos permaneçam dadas até o fim da vida. Sim, se houver um sincero e mútuo querer, sincronizar novos passos nessa dança é possível. O mais habitual, sinto dizer, são dançarinos passarem a existência na expectativa de que o outro baile como deve ser. Habitual é um 9 plantar bananeira para, na aparência de 6, manter-se na intersecção. Não funciona. A realidade sempre, sempre, sempre apresenta a sua fatura. Quando, finalmente, o casal olha no espelho, mesmo os elementos que unem agridem. Morrer se torna uma necessidade que demanda força e coragem.

Somente na terra profunda existe a possibilidade do renascer. Não há qualquer romantismo nessa jornada. O casal está morto e cada membro precisa voltar a ser um conjunto sem intersecção. Separar corações gera uma dor insuportável, mas, superável. Sentí-la, sem paliativos, é uma atitude sábia. Descansar a alma também. A dor um dia passa e a terra transmuta as toxinas produzidas pelo casal. Os olhos se abrem e reconhecem o buraco. Cada um puxa de volta para si o seu pedaço compartilhado de coração. Dói um pouco menos. A cova é acolhedora, escura e apertada. Encontram-se no ventre materno mais uma vez.

Por mais natural que seja, parir não é fácil. Parir a si mesmo, pior. A pessoa recém-separada precisa se nutrir, refazer os próprios órgãos, sentir os limites do buraco que a acolhe, reintegrar o coração despedaçado e avistar alguma luz para, com medo e tudo, seguir de cabeça erguida em direção a ela. Convites para interromper o processo com uma cesariana não faltam. É uma opção. Tende a desabar na próxima esquina quem conta com a mágica de um bisturi para renascer.

O renascimento começa com a aceitação da morte. Após esse marco, o ser ainda choroso pode se conectar com a própria essência, com a própria história, com os próprios valores. Eu sou o que sou. Sou e sinto uma afeição genuína por mim. Eu me amo e mereço o melhor da vida. É hora de se levantar. Antes, a pessoa toma em suas mãos aquele pedaço machucado de coração. Nota que ele está mais robusto, com um vermelho mais intenso. Mantém firme o olhar nos olhos do companheiro ou da companheira que reside ali dentro. Chora se preciso for. Faz emergir uma antiga sabedoria em suas palavras.

Eu sinto muito pelas dores que vivenciamos. Eu me responsabilizo e peço o seu perdão por aquelas que provoquei. Amo você com o amor mais leve e possível que sou capaz neste momento. Agradeço. Agradeço por contribuir na minha andança. Andei para frente. Pode ser que a saudade apareça vez ou outra, ainda assim, agora integro novamente ao meu peito a fatia de coração que compartilhávamos. Você continua nela. Tem o seu lugar e segue comigo. Na inteireza do meu ser caminho mais forte em direção à luz. Existe amor na separação.

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